“Os perigos da carne”

barbara October 23, 2012 2
“Os perigos da carne”

No último domingo (21), o programa Repórter Record dedicou uma edição inteira para falar da indústria agropecuária, do consumo da carne e de tudo que há por trás da questão.

A primeira reportagem do programa trata de denúncia a respeito de um abatedouro clandestino na cidade de Moreno, interior de Pernambuco. No local, a matéria atenta-se à falta de higiene, cuidados, e os requintes de crueldade a quais os animais são submetidos.

Com imagens gravadas por um aparelho celular, os jornalistas chegam ao local do abate e se deparam com uma situação deplorável. Um animal, ainda vivo, agoniza no chão, enquanto cinco pessoas se dedicam a tarefa de abatê-lo. A brutalidade é explícita.

A carne – clandestina – é vendida no mercado da cidade, em locais sujos e sem nenhum sinal de higiene. A vigilância sanitária explica que a fiscalização existe, mas não funciona, e diz que a construção de um frigorífico na cidade não é viável.

A questão é que depois da democratização do consumo da carne, enquanto a oferta cresce, os abatedouros clandestinos se espalham pelo país. É a população que corre riscos diariamente, quando se alimenta de carne da qual não sabe a procedência. Na reportagem, médicos e nutricionistas explicam os riscos de intoxicação e infecção aos quais somos submetidos.

A matéria também mostra uma operação da Agência de Defesa Agropecuária para apreensão de carne clandestina. Pelas estradas mais movimentadas do Nordeste, o alimento atravessa as cidades em veículos irregulares que não tem a menor condição de transportá-los.  A carne apreendida seria distribuída para restaurantes, feiras e outros estabelecimentos.

O terceiro assunto abordado pelo Câmera Record é a situação na qual os trabalhadores de frigoríficos se encontram. Na cidade de Rio Verde, em Goiás – onde existem unidades das empresas BR Foods (Perdigão e Sadia) e Marfrig (Seara, Da Granja, Pena Branca, entre outras) -, o programa investiga denúncias sobre o assunto.

Movimentos repetidos 10 horas por dia, 6 dias por semana, durante anos, deixam cicatrizes e lesões no corpo dos funcionários. A reportagem traz exemplos de pessoas que perderam movimentos e sofrem com a dor diariamente. O intervalo obrigatório de 20 minutos durante a jornada de trabalho é ignorado. As empresas não dão nenhum suporte aos empregados, mesmo sabendo dos riscos a qual eles são submetidos.

A situação não é isolada. Em frigoríficos de todo o Brasil o mesmo abandono acontece. Para quem insiste no argumento da geração de empregos para defender a indústria da carne, a reportagem deixa claro a que custo essas vagas são geradas, e como as pessoas que as ocupam são tratadas.

Grandes frigoríficos perseguem médicos que forneçam atestados a funcionários com problemas, e chegam a tentar subornar outros profissionais para que os anulem. Enquanto cidadãos “idolatram” o grande frigorífico da cidade, que teria trazido desenvolvimento à região, outros sofrem as consequências do descaso e do abuso a qual são submetidos.

O próximo tema é o consumo de carne à céu aberto nas ruas da cidade. A reportagem leva amostras do alimento a um laboratório, onde uma série de exames revela  que no famoso “churrasquinho grego”, a quantidade de bactérias e coliformes focais é elevada, levando-o a ser considerado um alimento de risco.

Marcelo Rezende encerra o programa com um discurso de indignação à situação deplorável a qual a população é submetida. O quilo da carne é caro e os impostos são altos, e mesmo que paguemos por isso, a falta de fiscalização é eminente e a indústria da carne produz problemas que vão da ordem de saúde à ordem social.

Apesar de algumas recentes reportagens sobre o universo vegetariano, ainda é extremamente difícil ver iniciativas da mídia que denunciem a indústria da pecuária. Por questões políticas e econômicas, a maioria dos veículos prefere não se impor e não incentivar à população a diminuir o consumo da carne, mesmo que ele seja cada vez mais necessário por diversas razões.

É importante frisar que se a reportagem começa mostrando denúncias a abatedouros clandestinos, ela traz ao seu decorrer importantes acusações à grandes e famosos frigoríficos. Se alguém ainda usa como tese de defesa o argumento de que crueldade e irregularidades só existem em pequenos locais de abate, a reportagem mostra o quanto isso não tem fundamento.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Distribuição mantém o SIF (Sistema de Inspeção Federal), e toda a carne produzida de abatedouros e frigoríficos legais deve conter o selo do órgão, mas o Repórter Record do último domingo deixa claro que nos bastidores, a história é outra.

Brutalidade, falta de fiscalização, e péssimas condições de higiene e de trabalho não são situações exclusivas à clandestinidade. O dinheiro que você gasta todo dia comprando carne – seja ela da marca que for – ajuda a financiar todas essas barbaridades.

Já passou da hora de nos “desaliernarmos” e entendermos de uma vez por todas que por trás do bife que se come no almoço, há vidas – animais e humanas – sendo sacrificadas.

Será que o luxo vale a pena?

A reportagem inteira você assiste aqui.

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2 Comentários »

  1. Cesar October 30, 2012 at 3:15 pm - Reply

    Ótimo texto, porém, vale algumas ressalvas. O título da matéria deveria se chamar ‘Os perigos da indústria da carne’, porque é disso que ela trata. O consumo em si não é perigoso, cada humano nesse planeta é a prova viva disso. Vale também frisar que uma coisa é essa precaridade de toda indústria, e a outra é a vegetarianização do mundo. Não podemos confundir para não cairmos na conversa do ‘bom ser humano’. As coisas não funcionam dessa maneira.

    “O dinheiro que você gasta todo dia comprando carne – seja ela da marca que for – ajuda a financiar todas essas barbaridades.” Isso é uma generalização, é falso. Existe outras maneiras de adquirir o produto além dessa. As pessoas precisam de carne é por isso que elas compram.

    “Já passou da hora de nos “desaliernarmos” e entendermos de uma vez por todas que por trás do bife que se come no almoço, há vidas – animais e humanas – sendo sacrificadas.”
    Isso é uma opinião subjetiva, baseada na tua interpretação de alienação. O mundo também nos manda ser vegetariano, vegan, ambientalista. É um posicionamento nulo e culpado.

    Vivemos hoje em dia num mundo em que a culpa religiosa se transformou numa culpa antropocentrica, como se tivessemos de nos posicionarmos de uma maneira superior ao mundo, pois temos consciência. Pensar assim ainda é colocarmos num pedestal.

    Essa questão não é tão simples, necessita de muitas reflexões. Generalizar e dizer que quem apoia o consumo de carne é alienado, é um argumento ingênuo. Talvez a alienação não esteja onde você acha que está.

    • barbara November 7, 2012 at 3:01 pm - Reply

      Olá, César!
      Vou levar em consideração sua sugestão de título. Pode ser que o que eu vou lhe falar não caiba no contexto desse texto, mas quando você diz que “o consumo de carne não é perigoso”, certamente está esquecendo de todos os malefícios à saúde que a medicina já comprovou que ele traz, né?
      E espero que quando você diz que “as pessoas precisam de carne”, não esteja querendo dizer que a carne é essencial para nossa sobrevivência, pois isso a medicina também já provou que não é.
      A indústria da carne existe porque é lucrativa, e é lucrativa porque nós compramos seu produto. Se não comprássemos, não haveria frigorífico que ficasse em pé para cometer todos esses crimes. Então, indiretamente, ajudamos a financiar essas barbaridades sim. É uma conclusão radical? pode ser. Mas não deixa de ser verdadeira.
      Quando falo de “alienação”, me refiro a maioria da população que sequer tem noção de tudo que esconde a indústria da pecuária. Afinal, a mídia pouco nos mostra tudo isso, não é? De maneira nenhuma digo que TODOS que comem carne são alienados. Peço desculpas se o texto levou a isso. Existe quem come carne porque não tem ideia do que há por trás da indústria pecuarista, e existe quem saiba e mesmo assim prefira consumi-la. É uma questão de opção.
      A iniciativa desse site e de tudo que está publicado aqui, é exatamente levar INFORMAÇÃO sobre o vegetarianismo, e a Ativeg serve de fonte de informação pra muita gente que não sabe nada sobre o assunto.
      Não acredito que tenhamos que “nos posicionar de maneira superior ao mundo”, mas temos que usar nossa consciência. Não é questão de nos colocarmos num pedestal, e sim de usar o conhecimento que nos é dado para lutar contra as injustiças que vemos todos os dias.
      Tenho certeza que se você ler os outros artigos do site, e até em partes desse texto, entenderá nosso perfil editorial e encontrará um grande montante de argumentos “não ingênuos” contra o consumo da carne. Todos estamos certos que a alienação não é a única culpada.
      A questão realmente exige reflexão. É por isso que a Ativeg estamos aqui, e é por isso que ficamos feliz com a sua participação. Obrigada, Cesar!

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